segunda-feira, 5 de outubro de 2009




Ontem, chorei.

Cheguei a casa, meti-me no quarto, sentei-me na beirinha da minha
cama, tirei os sapatos, desapertei o sutiã
e chorei um bom bocado.
Acreditem
que chorei até o meu nariz pingar para cima da minha blusa de seda
que comprei nos saldos.
Chorei até ficar com as orelhas quentes.
Chorei até ficar com uma dor de cabeça tão grande,
que mal conseguia ver a pilha de lenços de papel sujos acumulada
no chão, aos meus pés.
Quero que saibam
que ontem chorei um bom bocado.
Ontem, chorei
por todos os dias em que estive tão ocupada, ou tão cansada, ou
tão irritada, que nem consegui chorar.
Chorei por todos os dias, e de todas as maneiras
e todos os momentos em que eu desonrara, desrespeitara e desligara
o meu Eu de mim própria,
e acabara por vê-lo reflectido na maneira como
os outros me faziam
as mesmas coisas que eu já fizera a mim própria.
Chorei por todas as coisas que eu dera para depois mas roubarem;
por todas as coisas que pedira e ainda não se tinha concretizado;
por todas as coisas que conquistara para depois as dar a pessoas
em circunstâncias
que me deixavam com uma sensação de vazio, magoada
e simplesmente usada.
Chorei, porque realmente chega uma altura na vida em que
a única coisa que nos resta fazer é chorar.
Ontem, chorei.
Chorei pelos meninos abandonados pelos pais;
e pelas meninas esquecidas pela mães;
e pelos pais que não sabem o que fazer e, por isso, partem;
e pelas mães sem marido que, por isso, enlouquecem.
Chorei, porque tive um menino quando eu própria era uma menina
e porque eu era mãe e não sabia o que fazer,
e porque queria o meu pai ao meu lado, queria-o
com tanta força que até doía.
Ontem, chorei.
Chorei, porque sofria.
Chorei, porque me fizeram sofrer.
Chorei, porque o sofrimento não tem para onde ir,
a não ser para dentro da dor que o causou à partida,
e quando lá chega, o sofrimento desperta-nos.
Chorei, porque era demasiado tarde.
Chorei, porque era chegada a minha hora.
Chorei, porque a minha alma sabia que eu não sabia
que a minha alma sabia tudo o que eu precisava de saber.
Chorei com toda a alma, ontem, e soube-me tão bem.
Pareceu-me tão, tão mal.
Por entre o meu choro, senti a minha liberdade chegar.
Porque
ontem, chorei com um objectivo.

de Iyanla Vanzant

sábado, 30 de maio de 2009

Eu quero é ser feliz, mãe!



Fevereiro 2, 2009 às 4:14 pm (Uncategorized)


O que fazer? Em sentido amplo esta é a pergunta que tenho mais me feito ultimamente. Creio eu, é também a que você mais tem feito, minha cara leitora, sobre algo que chamamos, no Brasil, Vestibular. Imagino que não exista nada neste mundo tão inexoravelmente mau como o vestibular, o que me remete à minha primeira pergunta. O que fazer?
Verdade seja dita. Aos dezessete ou dezoito anos somos todos crianças. Por mais velho que queira parecer, um pum ainda é motivo de risadas histéricas e insanas quando se tem dezessete. Uma piadinha sobre o cofrinho do professor pode transformar trinta “adultos” em trinta macacos em um piscar de olhos. Nada disso, entretanto, impede que tenhamos que fazer esta terrível e penosa prova.
A pressão, AH! A pressão! Todos querem que sejamos médicos ou advogados e nem pensar em ser professor, hein menino? Se a arte de abrir pessoas não nos interessa nem o mindinho e assinar papéis não é exatamente o que você deseja fazer o resto da vida, sejamos sinceros. Entretanto, tenha bom senso e saiba diferenciar o real do que você vive até hoje. Infelizmente, papai e mamãe não pagarão suas contas em cinco anos e se quer ar fresco e viver entre as montanhas seja feliz assim, entretanto, Peter Pans amarguram-se ainda mais quando descobrem já velhos que perderam a parte mais importante de suas vidas. “Mas então, tio, o que eu faço???” Pera menina, já vou lhe dizer.
Faça exatamente o que você quer. Minha cara, sua meta é sempre ser melhor para você mesma. Você deve crescer para si. Cada dia acordar e poder dizer que esta melhor, que é a melhor, tanto como ser humano, como profissional. Se pretende fazer Letras Ocultas e Ciências Escondidas na Universidade de São Pelé da Cochinchina, seja a melhor. Já diria Nietzsche que não há nada mais poderoso que a vontade humana. Essa vontade, esse desejo de ser o melhor, torna qualquer curso, por mais insignificante que ele pareça, um poder sem igual. Não deixe a ninguém a escolha de seu caminho. Um curso que não a agrada será um fardo, a deixará apática e infeliz. Exercendo algo que não queira você será uma profissional medíocre, independentemente do trabalho que teve para adquirir um roliço diploma…Diga com sinceridade a seus pais, eu quero é ser feliz! Pode ter certeza, a oportunidade virá, mais que uma vez, de certo. Para quem realmente quer vencer, fazer o que ama pode ser algo imensuravelmente prazeroso e produtivo. Seja sincero em sua decisão agora para não se arrepender aos trinta. Aos trinta pode ser tarde demais para querer mudar. Independente do que você faça, opte pelo que a fará mais feliz…
Francisco Mello Castro (meu filho)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Apaixonante este texto






Não consigo esquecer a expressão de alívio de um amigo no dia em que me apresentou sua nova morada, há alguns anos. Ele, finalmente, havia saído da casa dos pais e estava montando aquilo que, em breve, chamaria de seu lar. Com a expressão de alívio, vieram as palavras "se eu soubesse que crescer era tão bom, tinha dado um jeito de fazer isso antes". Desde então, a frase bate aqui na cachola, vez por outra, toda vez que vejo crianças adquirindo seus traumas inadvertidamente e sempre que me lembro dos meus.Casimiro de Abreu cantou os versos de sua infância querida, na aurora da vida que os anos não trazem mais e, depois disso, o saudosismo do estilo romântico virou quase uma lei na evocação das primeiras memórias. Mas eu nunca consegui me identificar com esses versos. É que, depois dos 4 anos, minha infância virou uma sucessão de episódios odiáveis que me faziam pensar em uma única coisa: fechar os olhos e crescer o mais rápido possível.Eu sonhava em ser como o Pequeno Polegar para passar despercebida das chateações escolares. Ou ao menos ser como aquelas crianças que são tão iguais e comuns que somem em meio umas às outras. Queria ser franzina, ter cabelo liso e preto, ficar quietinha no fundo da sala sem que ninguém percebesse que eu existia. Mas não tinha jeito, eu era o oposto e chamava a atenção. Seja porque era grande e corpulenta, ou porque tinha um nome incomum, ou ainda por causa dos cabelos anelados que cresciam volumosos feito os da Simone, na década de 1980... Eu era um prato cheio para as piadas infantis. Para piorar a situação, dos 4 aos 8 anos, mudei de escola 4 vezes. E isso numa cidade estranha, que não era aquela em que eu havia nascido. Ali não moravam os meus avós, nem os tios ou primos; não havia Avenida Dom Pedro II, nem a sorveteria da Kibon que ficava na esquina, onde meu pai nos levava para tomar um sundae nos dias chuvosos.Logo entendi o significado do termo "saco-de-pancadas" e, apesar do tamanho, qualidade que me permitia reduzir a pó qualquer um daqueles meus colegas pirralhos, eu era uma criatura tão pacata e amigável feito o touro Ferdinando. Eu não sabia brigar e ninguém me ensinou a me defender. O resultado era essa vontade louca de tomar um "chá de sumiço", de virar um ser invisível, e a consolidação do meu fetiche por caixas. Caixas de todos os tamanhos. Quando bebê, ficava irritada e gritava a plenos pulmões por não conseguir entrar em caixas de sapato. Eu punha o traseiro dentro e as pernas ficavam de fora. Punha as pernas e o traseiro é que saía da caixa. Então, me arrumaram uma caixa maior e eu pude fazer dela o meu cafofo, o meu ninho, o meu bunker. Recortei janelas porque, embora eu gostasse da proteção e da estabilidade das caixas, não queria viver enclausurada. A aurora da minha vida deixou de ser querida aos 4 anos. Eu gostava dos poemas infantis da Cecília Meireles e, na escola, borboleteávamos com as cores de Vinicius de Moraes ― fora dela, ele continuava nos contando histórias em sua Arca de Noé. Eu realmente gostava de tudo isso, mas já percebia que aquela poesia toda dos livros não fazia parte do meu mundo real. Cecília Meireles e Vinicius de Moraes não pareciam ter sofrido chacotas na infância e, portanto, não deviam ter muita noção do que diziam. Ainda assim, o mundo deles era mais bonito do que o meu.Então, da vontade de querer entrar em caixas eu passei para o desejo de entrar nas histórias. Eu queria entrar na tela da TV e salvar o simpático e feioso gigante ciclope da Fúria de Titãs, queria entrar nos livros e saber o que acontecia depois do "foram felizes para sempre" ― ninguém nunca havia me dito como era ser feliz para sempre.Quando uma história era boa, eu não gostava de saber que ela estava destinada a acabar. Por isso, talvez, li mais de três vezes O menino do dedo verde, imaginando que eu poderia entrar no livro e subir a escada de plantas que levava ao céu. Aos oito ou dez anos, não me lembro ao certo, li A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector. Como diz o Mia Couto, aquilo representou um "terremoto" na minha curta existência. Fiquei tão impressionada e me identifiquei tanto com a narrativa que me pus a escrever uma carta para a autora, ignorando que teria que recorrer a um centro espírita para fazê-la chegar à destinatária. Eu tinha tanta coisa para dizer a Clarice... De repente eu tinha achado alguém que também havia matado peixes sem querer e que se mortificava de culpa por isso, alguém que conhecia um Dilermando, alguém que gostava de cães e que escrevia.Eu gostava de escrever e, depois disso, encasquetei que queria ser como ela, eu queria ser escritora. Minha mãe deve ter visto minha empolgação e não teve coragem de me contar que a autora já havia morrido, então, disse que enviaria para a editora a fim de que a carta fosse encaminhada a ela. Confesso que fiquei meio chateada com a falta de resposta, mas perdoei Clarice depois que soube de sua morte. Fazer o quê, se essa gente boa não espera a gente crescer?Depois vieram os irmãos Grimm, As aventuras do Barão do Münchausen, a Coleção Vagalume e outros tantos. Mais tarde, já na adolescência, descobri Graciliano Ramos. Foi identificação à primeira linha. Finalmente alguém retratava a tenra idade de um modo mais realista, lembrando que nem tudo eram flores. No seu Infância ― um dos mais belos livros já escritos em língua portuguesa ―, a gente não vê a hora de o protagonista crescer e acabar logo com aquele sofrimento todo.Mas eu estava crescendo e, ao contrário do que imaginava, o tormento só piorava com a adolescência. Então, adotei a estratégia de sobrevivência social de todo adolescente e adaptei a técnica do "bata primeiro, antes que batam em você". Bater, eu não batia, porque não sabia. Mas rosnar era comigo mesmo.A gente cresce e finge que é normal: a casca endurece até virar uma espécie de caixa de papelão bem resistente, mas do lado de dentro a história ainda é singela, a gente se emociona com propaganda de sabão em pó e a nossa manteiga continua derretida. Nessa época, eu já sabia que não podia entrar nas histórias, mas não me dei por vencida: fiz com que elas entrassem na minha caixa. Dentro dela, voei de balão com O Barão nas árvores, do Ítalo Calvino, até que a realidade me fez fechar a contra-capa do livro ― e, aí, sim, alguém deve ter visto, do lado de fora, minha caixa se debulhando em lágrimas.Eu já nem era mais gente pequena quando topei com as infâncias do Manoel de Barros e fiz as pazes com a minha. Como passei tanto tempo sem respirar as comoventes palavras do fraseador eu realmente não sei. Logo eu, que também queria escovar palavras. Ano passado, descobri a meninice do irlandês Frank McCourt, por quem também me apaixonei perdidamente à primeira linha. As cinzas de Ângela me fizeram evocar outro terremoto em minha vida, quando assisti, ainda adolescente, a Adeus, meninos, do diretor Louis Malle. O filme bateu de um jeito cá dentro que eu queria entrar na tela e ajudar aqueles garotos a esconderem o colega judeu e dar um jeito de apartar as brigas nos recreios do internato. Eu queria dizer umas verdades para aqueles professores e traçar um plano de fuga para todos os meus colegas imaginários ― mais camaradas do que os que eu tinha no mundo real. Juntos, abandonaríamos aquela instituição repressora e iríamos para a Austrália, onde eu sabia que pulavam cangurus ― um bicho tão simpático que estampava um selo da minha reduzidíssima coleção ―, ou para algum lugar ensolarado, bem longe da Segunda Guerra.Depois que o tormento passa, a gente começa a ver o lado bom das coisas. A partir dos 16 anos, mais ou menos, a coisa começou a melhorar e eu fui abandonando a caixa aos poucos, mas não a literatura e os filmes que retratam o tema infantil. Foram eles que me ajudaram a sobreviver àquele período permeado de sentimentos extremamente frágeis e sensíveis, que qualquer peteleco rude ou patada adulta é capaz de desmoronar.Hoje, não sei se eu concordo com a frase do meu amigo. A gente tem mania de nunca querer estar onde de fato está. Prefiro achar que aprendemos de tudo nesta vida, inclusive a brigar e a nos defender. Com o tempo vemos que o perigo maior não é apanhar dos outros ou ser ridicularizado, mas deixar que isso nos endureça a ponto de matar a nossa capacidade imaginativa. Ainda bem que as histórias existem. As histórias e as crianças.

Pilar FazitoBelo Horizonte, 4/5/2009




sábado, 2 de maio de 2009

SOBREMESA DE BISCOITO DA ANA MARIA BRAGA

Ingredientes

250 gramas de chocolate meio amargo picado

600 gramas de chocolate branco picado

2 latas de creme de leite sem soro

Essência de baunilha

3 pacotes de biscoito Negresco –tire o recheio de dois pacotes.

Modo de fazer:

NO BANHO MARIA, DERRETA O CHOCOLATE BRANCO. JUNTE UMA LATA E MEIA DE CREME DE LEITE. NESSA MISTURA ACRESCENTE UMA COLHER DE ESSENCIA DE BAUNILHA

FAÇA O MESMO COM O CHOCOLATE MEIO AMARGO, SEM COLOCAR ESSENCIA DE BAUNILHA.

UNTE A FORMA COM MANTEIGA. FORRE A FORMA TODA COM OS BISCOITOS NEGRESCOS INTEIROS, INCLUSIVE COM O RECHEIO. EM VOLTA, COLOQUE OS BISCOITOS SEM O RECHEIO.

COLOQUE METADE DO CREME BRANCO EM CIMA DOS BISCOITOS, LEVE PARA A GELADEIRA ATÉ FICAR DURO. UNS DEZ MINUTOS. DEPOIS, COLOQUE O CREME DE CHOCOLATE PRETO. LEVE DE NOVO NA GELADEIRA POR DEZ MINUTOS.

COLOQUE O RESTANTE DO CREME BRANCO E COLOQUE OS BISCOITOS NEGRESCOS POR CIMA, SEM O RECHEIO. COLOQUE SOMENTE UNS DEZ BISCOITOS.

DEPOIS DE DEZ MINUTOS, DESENFORME, PASSANDO UM PANO QUENTE EM VOLTA DA FORMA.

http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM1011518-7822-SOBREMESA+DOS+SONHOS,00.html

domingo, 26 de abril de 2009









As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente.
Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.



de Daniel Faria
em Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

FELIZ 2009 PARA TODOS NÓS!


O PETER PAN ERA UM IDIOTA



O PETER PAN ERA UM IDIOTA(Antonio Prata)

Alguma vez já aconteceu com você de aquela tia chata apertar a sua bochecha e dizer, empolgadíssima: “Aproveita, menina! Aproveita porque essa é a melhor fase da vida! E passa tão depressa! Aproveita!”?Eu lhes digo sem apertar a bochecha: fiquem tranqüilas. Não dêem bola. Por vários motivos. Em primeiro lugar: se alguém aperta a bochecha do próximo(ás vezes nem tão próximo assim...), achando que está agradando, é mais do que óbvio que esse alguém não sabe patavinas sobre a vida. Mas há mais coisas na frase da tia.Há uma fantasia dos adultos sobre a infância e a adolescência. Talvez essa fantasia surja de adultos infelizes que, não vendo muita perspectiva em melhorarem no futuro, acabam pintando o passado com as cores mais contentes, como quem diz: “Ah! Pelo menos na juventude eu fui feliz!” Lá pelos meus 15 anos, sendo nerd exemplar, de óculos e aparelho nos dentes, eu me lembro de ficar angustiado, pensando: está passando! E eu não estou aproveitando! Não saio de role em conversíveis com mulheres gostosas, como nas propagandas de Campary, não faço trilhas selvagens de mountain bike como nas propagandas de Gatorade, nem derreto corações tocando sax como nas propagandas de Free. E vai acabar o prazo, eu não terei aproveitado, já serei adulto e tudo será chato!Pois tenho a honra de lhes dar uma ótima notícia: do alto (alto?!) de meus 24 anos, posso dizer que na idade adulta também há lugar para a felicidade! E muito! Não faço trilhas de mountain bike ,não toco sax nem tenho um conversível, mas tenho uma namorada que amo (e que, se for verdade o que me diz, me ama também), moro sozinho, nunca mais tive que decorar formúlas de química, ganho meu próprio dinheiro e, quando deixo a toalha molhada em cima da cama, sabe o que acontece? Nada! Claro, a minha vida dos 13 aos 20 foi mais difícil do que a do Rodolfinho, por exemplo, um cara da minha classe que era bonitinho, rico, jogava bola pra caramba e cantava bem. Mas eu aposto que, cada Rodolfinho,devem existir uns 15 Antonios (e Antonias) que não fazem a metade do que eles fazem e se angustiam. Por isso, minhas caras, se a vida não está a melhor coisa do mundo neste momento, fiquem tranqüilas. Tem tempo para tudo. As oportunidades batem, sim, muito mais do que uma vez á sua porta.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

MULHERES QUE CORREM COM LOBOS



Todas as mulheres devem ler esse livro. ~Unico.

domingo, 28 de setembro de 2008

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO





Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

VERBO SER



Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PEDAÇO DE MIM



by Chico Buarque


Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

sábado, 13 de setembro de 2008

Às Vezes o Amor


Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
me entra de repente
p'la porta da frente
e fica a porta escancarada?
Vou-te dizer a luz começou em frestas
se fores a ver enquanto assim durares
se fores amada e amares dirás sempre palavras destas
P'ra te ter p'ra que de mim não te zangues eu vou-te dar a pele, o meu cetim coração carmesim
as carnes e com elas sangues
Às vezes o amor
no calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo
e o dia tão diário disso tudo
E se um dia a razão
fria e negra do destino
deitar mão à porta, à luz aberta que te deixe liberta
e do pássaro se ouça o trino?
Por te querer vou abrir em mim dois espaços p'ra te dar enredo ao folhetim
a flor ao teu jardim as pernas e com elas braços
Às vezes o amor no calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo
e o dia tão diário disso tudo
Mas se tudo tem fim porquê dar a um amor guarida
mesmo assim dá princípio ao começo se morreres só te peço
da morte volta sempre em vida
Às vezes o amor no calendário, noutro mês, é dor, é cego e surdo e mudo
e o dia tão diário disso tudo
E o dia tão diário disso tudo
da morte volta sempre em VIDA.

by Sérgio Godinho


Pink Floyd
Mother, do you think they'll drop the bomb?

Mother, do you think they'll like this song?

Mother, do you think they'll try to break my balls?

Mother, should I build the wall?

Mother, should I run for President?

Mother, should I trust the government?

Mother, will they put me in the firing line?

Is it just a waste of time? Hush now baby, baby, don't you cry

Momma's gonna make all of your nightmares come true

Momma's gonna put all of her fears into you

Momma's gonna keep you right here under her wing

She won't let you fly, but she might let you sing

Momma's will keep

Baby cozy and warmOooo

BabeOooo BabeOoo Babe, of course

Momma's gonna help build the wall

Mother, do you think she's good enough

For me?

Mother, do you think she's dangerous

To me?

Mother will she tear your little boy apart?

Mother, will she break my heart?

Hush now baby, baby, don't you cry

Momma's gonna check out all your girlfriends for you

Momma won't let anyone dirty get through

Momma's gonna wait up until you get in

Momma will always find out where you've been

Momma's gonna keep

Baby healthy and clean

Oooo BabeOooo BabeOoo

Babe, you'll always be

Baby to me

Mother, did it need to be so high

domingo, 31 de agosto de 2008

ORAÇÃO


"A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora".
Soren Kierkegaard

EU VOLTAREI



Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho, servidor do próximo, honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias. Muitos filhos à nossa volta. Cada nascer de um filho será marcado com o plantio de uma árvore simbólica. A árvore de Paulo, a árvore de Manoel, a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar. Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas, teremos uma fazenda e um Horto Florestal. Plantaremos o mogno, o jacarandá, o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro. Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros. Terão moinhos e serrarias e panificadoras. Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens e mulheres, ligados profundamente ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros. Eu voltarei... A pedra do meu túmulo será enfeitada de espigas de trigo e cereais quebrados minha oferta póstuma às formigas que têm suas casinhas subterra e aos pássaros cantores que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes.
Eu voltarei...
by Cora Coralina

domingo, 24 de agosto de 2008

AS MULHERES TEM FIOS DESLIGADOS



Nota: texto em português de Portugal, escrito por Antôno Lobo antunes, Revista Visão - 07/2008

Há uns tempos a Joana
-Pai, acabei um namoro à homem
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
-já não gosto de ti
De
-não quero mais.
Chegam com discursos vagos, circulares:
-preciso de tempo para pensar
-não é que não te ame, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
Ou declarações do género de
- tu mereces melhor
-estive a reflectir e acho que já não te faço feliz
-necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
E aos amigos:
-dá-me os parabéns que lá consegui livrar-me da chata
-custou mas foi
-amandei-lhe aquelas lérias do costume e a gaja engoliu
-chora um dia ou dois e passa-lhe.
E pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarréias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar (xixi, sede, fome, a janela de que esqueceram de fechar o estore) ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas, pá e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarrados à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava:
- o maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é pensar que durante uma semana estou safo.
E depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las.
O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- as mulheres têm os fios desligados
E outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meus Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
-já não gosto de ti
Se informam
-não quero mais
Aí estão eles alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos, ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores, eles que nunca mandavam a colocarem-se de plantão À porta dado que aquela p*** há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-pagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, Che Guevara ou eu, e eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhes caia na sorte um caramelo que passe À frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por xixi-sede-fome-persianas-mal-descidas-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti está em mim, a mexerem a faca na mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Schubert. De Ovídio. De Horácio, de Vergílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde idiota, desonesto.
Fui (espero que não muitas vezes)rasca. Volta e meia surge-me na cabeça uma frase do Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde de mais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc..., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma mulher contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- mereces melhor que eu
Levou com a resposta
- pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua.
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que vi na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.»

SALÃO DE BELEZA





Zeca Baleiro


Se ela se penteia eu não sei
Se ela usa maquilagem eu não sei
Se aquela mulher é vaidosa eu não seiEu não sei eu não sei
Vem você me dizer que vai a um salão de beleza
Fazer permanente massagem rinsagemReflexo e outras cositas más
Baby você não precisa de um salão de beleza
Há menos beleza num salão de beleza
A sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão
Mundo velho e decadente mundo
Ainda não aprendeu a admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro puro do engano da imperfeição
Belle belle como Linda Envangelista
Linda Linda como Isabelle Adja

AS ESCOLHAS DE UMA VIDA



Pedro Bial

À certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por Woody Allen diz: "Nós somos a soma das nossas decisões". Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu. Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso. Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção, estamos descartando outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar "minha vida".
Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a arquitetura. No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro,num excitante vaivém de romances. Até que chega um momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e responsabilidades.
As duas opções têm seus prós e contras: Viver sem laços e viver com laços...Escolha: Beber até cair ou virar vegetariano e budista? Todas as alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas.
Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando não se está. Por isso é necessário ler muito, ouvir muito e não cultivar preconceitos. Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas,elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: Ninguém é o mesmo para sempre. Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é curto. Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.

Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50% de chance de darem errado.

OS FILHOS



Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós.E embora vivam convosco, não vos pertencem.Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos.P orque eles têm seus próprios pensamentos.Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não podem fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força para que suas flechas se projetem rápido e para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria.

Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável.
Gibran Khalil