
Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
me entra de repente
p'la porta da frente
e fica a porta escancarada?
Vou-te dizer a luz começou em frestas
se fores a ver enquanto assim durares
se fores amada e amares dirás sempre palavras destas
P'ra te ter p'ra que de mim não te zangues eu vou-te dar a pele, o meu cetim coração carmesim
as carnes e com elas sangues
Às vezes o amor
no calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo
e o dia tão diário disso tudo
E se um dia a razão
fria e negra do destino
deitar mão à porta, à luz aberta que te deixe liberta
e do pássaro se ouça o trino?
Por te querer vou abrir em mim dois espaços p'ra te dar enredo ao folhetim
a flor ao teu jardim as pernas e com elas braços
Às vezes o amor no calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo
e o dia tão diário disso tudo
Mas se tudo tem fim porquê dar a um amor guarida
mesmo assim dá princípio ao começo se morreres só te peço
da morte volta sempre em vida
Às vezes o amor no calendário, noutro mês, é dor, é cego e surdo e mudo
e o dia tão diário disso tudo
E o dia tão diário disso tudo
da morte volta sempre em VIDA.
by Sérgio Godinho
