segunda-feira, 11 de agosto de 2008

EM TEMPO



Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: "Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

de Adélia Prado

PARA MIM MESMA



Espero que 2.000 seja um ano especial,
charmoso, com cara de novo!
Com jeito gostoso, um ano realmente novo!
Quero fazer coisas diferentes,
ser ousada - reinventar o que tenho feito rotineiramente,
quebrando paradigmas sem valor e
renovando meus valores.
Quero conservar minha ética, renovar minha moral,
reacender meu visual, minha luz interior,
ser outra "eu mesmo".
Quero, quero e quero continuar querendo,
sem amarras bestas e pré-conceitos que cegam...
Vou eleger uma nova amiga, mesmo que seja uma velha conhecida,
vou mudar de cores - cansei das cores pálidas.
Vou ter 41 anos bem feitos, com direito a bolo, vela e vinho.
Bem pensado serei como um bom vinho de cheiro marcante e gosto espesso,
próprio para especialistas,.
Serei profissional sem ser passional,
vou rever critérios de trabalho, apostar na equipe.
Vou investir em mim, no mercado, nos meus filhos...
Vou me perdoar pelo que não fiz - e deveria ter feito.
E pelo que fiz - e não deveria ter feito desde 1958.
Não serei a maior, mas serei eu - eu mesmas em 2.000
e para sempre,
AMÉM.

Nota: no final de 2.000 me separei.

TENTATIVA DE VIDA


A filha que nunca terei
repousa nos meus sonhos.
Veste vestido de chita colorido,
embala bonecas, ursos,
palhaços risonhos
e tem no rosto tanta paz,
tanta calma,
que maior não seria possível.

Ela não é dessas lindezas totais,
mas tem tanta graça,
tantos sorrisos,
que só olhando-a
eu já sinto paz.

Ela corre pelas tardes à fora,
pega o arco-iris com suas mãozinhas gordas,
quebra minha solidão
com choros e risadas,
arranca vida do meu gelo,
me compra com suas façanhas mil...

A filha que nunca terei em vida
tenho em sonhos,
e vejo-a num lago,
perdida entre rosas,
transformada em sempre-viva.


Ela vive apenas à noite,
quando casada da vida
eu gero uma filha,
que me enfeita as noites e me faz sorrir de dia.

Escrito datado de 10.09.1977
Nota: hoje tenho uma filha de 12 anos. Ela me faz sorrir de noite - e de dia.

ROTINA

E o dia passa
a tarde vem
a noite engole
tudo num vai e vem.

É sempre outono,
a quinta, o dia primeiro,
é sempre a chuvarenta chuva
chovendo ns finais de semana.

É sempre o chamusquento sol
torrando no meio da semana,
e a gente correndo,
e a gente passando,
carros, prédios e sinais..

É sempre o mesmo amarelo - PERIGO!,
e os mesmos carros correndo na gente,
e os mesmos bares roubando da gente,
e as mesmas tardes
levando o povo
e a mesma mágoa revisitada
usando o mesmo vestido roxo...

É sempre inverno
quando no sangue é verão.
É sempre assim:
a vida fazendo tudo ao contrário do que a gente quer.
Ou é a gente que quer tudo contrário
do que a vida nos quer dar?

INÍCIO



Não me recordo como tudo começou.
Acho que pensei que a vida fosse sempre um presente, que eu pudesse escolher como, onde, o quê e porque...Recordo que de repende acordei no meio da vida e no fim de um casamento. Passados os 40 - chegando aos 50.