domingo, 24 de agosto de 2008

ELEGIA ÀS MÃES MÁS



Caterine Serrurier

"Nós, mulheres, temos raiva de nossos filhos, porque eles nos incomodam. As mães, levadas por seu inconsciente, como todo mundo, são agressivas, em graus diferentes, em relação aos filhos".

"E as crianças, parceiras privilegiadas dessas relações, nunca se enganam: os pais são sempre desmascarados pelos filhos."


"O pano de fundo social da função de mãe de família não é realmente sedutor: solidão, exclusão, incompreensão, sobrecarga, distorção entre o ideal e ovivido, perda do desejo...Não é realmente bom ser mãe hoje em dia !".


"Além disso, há todos os comportamentos cotidianos da mãe, que tem, mais ou menos um significado suicida ou, em todo caso, auto destrutivo: privar-se em proveito da criança (de carne, de sobremesa, de televisão, de sair...), deixar-se sobrecarregar pelas tarefas domésticas, sem procurar se organizar e, sobretudo, deixando que os filhos a tiranizem; recusar a todo prazer, por assim dizer, e proveito do filho: sobretudo, não brincar, não fazer nenhumprograma que a obrigaria a "abandonar" a criança, não fazer amor com o marido, não trabalhar fora...Esse masoquismo é totalmente nocivo à criança. Os filhos e as filhas das mães-sacrifício não são nada condescendentes. Paradoxalmente, é pelo devotamento, pelo esquecimento de si que a mulher se dá importância. Ela é em geral amorosa porque é infeliz.


Toda mulher está em seu útero - útero: origem da palavra HISTERIA".


"A mãe culpada: É paradoxal, mas uma mulher que se censura por não se ocupar dos filhos, é, podemos dizer, uma mãe lúcida, mas nem por isso uma mãe suficientemente boa. Seu sentimento de culpa onipresente bloqueia justamente o caminho da descontração e da alegria, da abertura e da coesão tão necessários às crianças. Inútil precisar que se trata, na maioria, de mulheres que trabalham".


"Somos atraídos para onde somos mais reconhecidos, é normal".


...à noite, quando Thomas volta do trabalho, encontra uma mulher excitada demais ou completamente apagada. Sem nunca se maquiar e se pentear, precipita-se sobre ele como o libertador: tem mil coisas para dizer, para contar, ou então, necessidade de queixar do que lhe aconteceu com as crianças (besteiras e pequenos problemas de saúde) ou, ainda, atira-lhe o bebê nos braços e pede-lhe e para dar banho no mais velho,pois ela precisa fazer uma coisa urgente (ou seja, respirar).
... É a volta da tristeza, do desgosto, da vontade de nada, do sentimento de inexistência, mas agora mais grave do que antes. Quando Marie tem tempo para pensar, diz a si mesma que não é como as outras (as outras mães que vê ou acredita ver): elegantes, vivas, organizadas, que conseguem, elas sim, receber amigos ou aprender pintura em si. Acha-se envelhecida, impotente, em suma: uma negação".


"Por que devemos, de modo singular, temer esse sentimento de culpa das mães ? Por que esse sentimento de indignidade as torna más ? Porque sentir-se culpada não lhe dá particularmente um ar feliz. Porque uma mulher que vive ininterruptamente um conflito interior entre o que ela é e o que gostaria de ser, entre o que faz e o que gostaria de fazer, é uma mulher tensa, cont´raída, nervosa, e como esse é um sentimento particularmente difícil de suportar, a mãe, como todo ser humano, tem tendência a querer rejeitá-lo. E o mecanismo de defesa que funciona aqui é, pura e simplesmente,a transformação desse sentimento de culpa em rancor e agressividade contra aqueles que o suscitaram: os filhos!.


"Eis, em resumo, a situação da mãe depressiva, porque se sente uma vítima. Ela detesta o mundo e a si mesma em particular por ser obrigada a carregar, dia após dia, a carga física e moral de três filhos pequenos. Que efeito essa verdadeira doença interior, inconfessável - porque contraditória ("você quis essas crianças !") e não compreendida pela própria interessada, pode ter sobre as crianças ? Eles são submetidos a desgastes frequentes. Mamãe se irrita por nada, mas, sobretudo, muda de opinião, dá ordens e contra-ordens, e chia por uma coisa que permitiu cinco minutos antes...Não pára de se queixar, não ri. Pelo contrário, as crianças a vêem, as vezes, chorar, e se sentem responsáveis por sua tristeza - ainda mais porque ela não explica a razão..."


"Eu não lhes digo como Pierre Perrt: "Deixem em paz as crianças !", conselho com o qual concordo, aliás - mas, encontrem primeiro o seu proóprio caminho, seu desejo, seu projeto, que correspondam melhor à sua personalidade,deêm-se prazer, sejam felizes !...e então vocês serão melhores mães."


"A mãe é aqui embaixo o único Deus sem ateus" , dizia ErnestLegouvé, moralista da metade do século XIX.


"Sem o mito da mãe perfeitamente boa, que perdura até hoje, apesar de todas as revoluções e, particularmente a de maio de 68, nossas sociedades ocidentais não seriam o que são...Nossa demografia, talvez, não fosse equilibrada...se reinasse a lucidez e toda consciência coletiva estivesse impregnada da idéia de que nem todas as mães são feitas para serem mães, certamente haveria menos nascimentos, sobretudo porque contramos relativamente a concepção. O mito da "boa mãe" sempre foi eficaz também nos níveis dos costumes familiares e da distribuição dos papéis sociais."


"Eis por que alguns homens e mulheres adultos, mesmo que sejam indignos ou tenham sofrido com uma mãe medíocre, desprezam sua vivência pessoasl, escondem-na inconscientemente em benefício de uma ilusão reconfortante: toda mãe é uma boa mãe".


"Para alguns homens, nem a experiência de vida, nem a formação científica, nem a clarividência em outros domínios conseguirão contradizer o mito da mãe perfeitamente boa".


"Dizemos que o ser humano tem dois objetos secuais originários: ele mesmo e a mulher que lhe oferece cuidados" - Freud


"As mulheres e mães de hoje são ainda muito mais vítimas do que a evolução tão rápida dos costumes permitira supor. Os modelos ideais permanecem: o da mãe perfeita e o da mãe-virgem, aos quais as mães estão incessantemente atadas, como a um rochedo cujo pico seria inacessível e no qual só conseguem se esfolar."


"Foram os homens que descretaram e legislaram sobre a maternidade e sobre o papel social das mães. E isso pela simples razão de que as funções dirigentes serem sempre ocupadas por homens: padres, moralistas, filósofos, políticos".


"Desde Émile, estamos condenadas a ser mães e a ser boas mães. Não há outra alternativa. As contrário das verdadeiras vocações religiosas, que são livres e voluntárias, a vocação materna é obrigatória" - Elizabeth Badinter.


"Como não se revoltar (contra o homem ou, mais grave, contra as crianças) quando você sente cruelmente a injustiça da sua sorte que amarra você às panelas e aos carrinhos de bebê e nada em suas atividades dos anos anteriores, preparou você para isso..."


"Se uma adolescente de 14 anos já se sente mais velha do que seu colega de escola da mesma idade, o que não sentirá uma de 25 anos que trouxe ao mundo seu primeiro filho e descobre que seu parceiro, "homem" de 25 anos ou mais, lhe parece agora um garotinho ?"


"Ora, a mulher criativa - e há muitas entre as mães, tanto quanto, sem dúvida, em qualquer outra categoria de população - se vê proibida de criar, pois não tem nem tempo de sonhar nem de trabalhar para si mesma, no silêncio e na solidão indispensáveis. Adeus aos quadros, aos escritos, adeua à música ! Ou, mais extamente, adeus a toda esperança de progresso e invenção em todas essas artes. Pois os filhos são absolutamente prioritários em todos os meios e para todas as mentalidades. Privadas assim da paixão de amar, de transformar o mundo ou de criar o belo, inúmeras mulheres deixarm de ser sujeitos desejosos. E sabemos, desde Freud e Lacan, que a supressão do desejo é a paralisação do motor incansável de toda atividade humana, é a supressão da própria vida !"