
Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. Ela era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e, no entanto, a menina continuava a amá-la.Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina: nutria por ela um amor mais realista e não romântico, amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, ela a comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida.
Clarice Lispector, trecho do livro A descoberta do mundo.
